quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Uma breve análise de «Os Maias»

A obra de Eça de Queirós intentava ser um vasto e exaustivo inventário da sociedade portuguesa, em que Os Maias constituem um fresco extenso da alta burguesia e da aristocracia do fim do século.

Os Maias desenvolvem-se em duas instâncias, correspondentes respectivamente ao título e subtítulo: uma instância trágica e psicológica que nos pode fazê-lo classificar como romance psicológico, e uma instância cómica e satírica que nos leva a considerá-lo como um romance de costumes ou documental.

Os elementos que definem cada uma destas instâncias são: no plano trágico-psicológico, o insólito da situação; a fatalidade (ligada à casa do Ramalhete); a infracção involuntária (o incesto); o reconhecimento de identidades; a expiação ou purificação (o afastamento catártico de Carlos); a grandeza das personagens que avultam e se distinguem dos demais; a intenção trágica de suscitar "terror e piedade". No plano cómico-satírico existe a caricatura (de personagens e situações que se aproximam por vezes do "grotesco"); a análise social e psicológica; a crítica social; a intenção de suscitar o riso purificador e corrector.

Este romance é um romance de experiência, reflectindo, em muitos aspectos, a própria vivência do Autor.

Representa uma sociedade de transição, sociedade finissecular, caracterizada por uma aparência de despreocupada alegria de viver, escondendo um não disfarçado "mal du siècle", em que se efectuam importantes modificações sociais (o capitalismo, representado por Cohen, Cruges, etc., consequência duma industrialização tecnológica em plena expansão); a alta burguesia endinheirada que alcança o estatuto da velha aristocracia ou falha nessa pretensão, inibida por um ridículo novo-riquismo (Dâmaso Salcede). Reflecte também a transição de pers­pectiva estética, do Romantismo para o Realismo: o primeiro representado pelo velho poeta Tomás de Alencar (caracterizado habilmente com os mesmos epítetos que Eça aplicava ao próprio Romantismo: "antiquado, artificial e lúgubre..."; "voz arrastada, cavernosa, ateatrada"; o segundo representado pelo jovem positivista e ao mesmo tempo idealista João da Ega.

Os personagens são tratados diferentemente, segundo se enquadram em cada uma das dimensões apontadas: Maria Eduarda, Carlos Eduardo e Afonso da Maia (três personagens, à maneira trágica) são tratados com gravidade e apresentados como personagens modelados e dotados duma dinâmica psicológica. Dâmaso Salcede, o conde e a condessa de Gouvarinho, Cruges, Raquel, etc., etc., são tratados sob uma pers­pectiva caricatural. João da Ega ocupa uma posição diversa, de comentador e porta-voz.

Observando a obra no seu conjunto, podemos dizer que se trata dum romance polifónico, isto é, de muitas perspectivas e capaz de ser submetido a vários pontos de vista de análise. Assim, a sua classificação tipológica é, também, ambígua. É um romance de acontecimento ou de acção, na medida em que dá conta de um acontecimento central (os amores interditos de Maria Eduarda e Carlos da Maia); romance psicológico se considerarmos a dinâmica dos personagens e o ritmo psico­lógico a que estão submetidos. Mas podemos também considerá-lo um romance espácio-temporal, na medida em que dá conta de um ambiente humano, político, social, económico, num espaço limitado: a cidade de Lisboa (com os seus arredores) e, ocasionalmente, Santa Olávia.

Quanto à delimitação, é um romance aberto, na medida em que, ao fechar a última página, o destino de Carlos não está ainda concluído. O capítulo XVII encerraria, de facto, de modo definitivo e fechado o destino dos personagens: "E foi assim que ele (Ega) pela derradeira vez na vida viu Maria Eduarda, grande, muda, toda negra na claridade, à portinhola daquele vagão que para sempre a levava". Contudo, o final do cap. XVIII e último dá um novo significado ao romance: Carlos da Maia corre para o americano e, certamente, também para a vida, fechadas sobre o seu passado as portas do Ramalhete.

Eça é notável sobretudo pela criação de atmosferas e tipos arrancados à realidade. As suas tendências realistas, fundamentadas num cientismo psicológico, fazem-lhe encarar certas realidades lamentáveis à luz das suas causas e consequências, sem, contudo, deixar de condenar o erro. Assim, vemos Luísa (personagem de O Primo Basílio), cujo erro foi condicionado por diversas circunstâncias de educação, temperamento e casualidades fortuitas. Ela não errou por força do destino ou por sujeição a uma fatalidade: errou por causas bem determinadas, e objectivamente analisadas. Luísa é, porém, terrivelmente castigada pelo sucesso dos acontecimentos. O caso de Amaro (O Crime do Padre Amaro) é simétrico e paralelo: ele é o produto de uma sociedade errada e de uma educação viciosa.

O Estilo

Foi, contudo, talvez como estilista que Eça mais se impôs na Literatura Portuguesa. Efectivamente, é com ele que um sopro arejado e vivificador vem renovar a Língua Portuguesa que perde, porventura, em vernaculidade e em pureza, mas ganha em maleabilidade e possibilidades expressivas. Amadurecida a partir de Vieira, a Língua Portuguesa apresenta, por assim dizer, a mesma grave fisionomia durante os séculos XVIII e XIX, excepção feita a Garrett. A partir de Eça de Queirós, vemo-nos, finalmente, na posse duma língua dúctil, aligeirada, adaptada às neces­sidades modernas da expressão.

Vejamos as principais características sistematizáveis no seu estilo:

- uso do discurso semidirecto, que assim se transfere para um plano de objectividade analítica;
- desnivelamento da adjectivação (hipálage), isto é: a um substan­tivo concreto atribui uma qualidade de ordem abstracta; a um ser inanimado confere atributos humanos, e vice-versa: "monte facundo de jornais", "luz pensativa", "adro grave", etc. Este aspecto confere à sua prosa um tom inesperado e surpreendente;
- uso do estilo impressionista, com a notação de sensações que, sugeridas ao leitor, lhe permitem reconstituir a realidade: as suas descrições de paisagens e ambientes são feitas, sobretudo, através de indicação de cores, tonalidades, ruídos, aromas, sensações de quente, frio, etc. (presente frequentemente na descrição).
- indicação do pormenor material: "cruz de pedra", "corrente de ferro", etc.;
- capacidade de criação imagética que confere à sua linguagem (um tom poético).
Quanto aos processos de construção romanesca, apontaremos sobretudo o processo realista de começar a acção no meio; o leitor é posto imediatamente no interior do ambiente em que vai decorrer a intriga.
Eça descreve não o ambiente, mas os dados concretos desse ambiente.

Quanto às personagens, procede identicamente: é através do vestuário, dos ademanes (as "maneiras" das personagens), da linguagem, das ideias expressas que nós, leitores, reconstituímos uma dada personagem. Desse modo, tal como na vida real, não é logo ao primeiro contacto que nos é delineada a personalidade em questão; mas é no decorrer do entrecho, depois de intervenções sucessivas, que nos é permitido travar conhecimento cada vez mais completo com cada personagem. Pouco a pouco, depois de encontrarmos uma vez e outra João da Ega, e outros, é que se nos vai desvendando o respectivo carácter.
in BUESCU, Maria Leonor Carvalhão - Apontamentos de Literatura Portuguesa. PORTO: Porto Editora, 1984

2 comentários:

Isa disse...

Ao contrário da obra de Frei Luís de Sousa, os Maias é um livro muito grande e complicado de se entender.
É muito confuso, apesar da sua história até ser interessante.
As personagens aparecem sem se saber o porquê, o que deixa sempre no ar quem é a personagem.

João Carlos Costa disse...

De facto, é um romance complexo, e extenso.
Mas as coisas demasiado simples por vezes tornam-se desinteressantes, por isso mesmo: por um excesso de simplicidade.
E as vidas não são simples, poir não? E tantas e tantas vezes entra gente na nossa vida de que nem damos conta...
E a riqueza de «Os Maias» está precisamente nessa enorme quantidade de personagens que participam na obra. E que pretendem mostrar que a vida é mesmo assim: complexa, rica, cheia de gente que nela entra e sai, às vezes sem sequer nos darmos conta.
Mas espero que isso não sirva de desculpa para abandonar a leitura do romance. Porque realmente vale a pena lê-lo.